Com o início das exportações de carne de porco para o Japão,
previsto para os próximos meses, Santa Catarina começará a auferir mais um
expressivo ganho da severa política de controle sanitário de seus rebanhos, que
vem mantendo há anos. Essa política já lhe rendeu a certificação internacional
como único Estado brasileiro livre da febre aftosa sem necessidade de
vacinação.
Mesmo assim, só após longa e minuciosa fiscalização in loco
das condições de operação da suinocultura catarinense e de muitas reuniões de
seus técnicos com representantes do Ministério da Agricultura e do governo
catarinense, o governo japonês anunciou há dias sua concordância com a
certificação internacional.
Trata-se de uma etapa crucial para a abertura do mercado
japonês à carne de porco originária do Brasil. Mas o processo ainda não está
concluído. Como outras negociações com as autoridades japonesas, também esta
exigiu paciência, informações criteriosas e muita sagacidade dos representantes
brasileiros.
Em dezembro de 2007, sete meses depois de Santa Catarina ter
obtido o reconhecimento pela Organização Internacional de Saúde Animal como
zona livre de febre aftosa sem vacinação, dois pesquisadores japoneses vieram
ao Brasil, para conhecer a situação no local. A confiabilidade do produto
brasileiro estava sendo questionada por diversos importadores porque, dois anos
antes, houvera um surto em Mato Grosso do Sul, com grandes perdas para os
produtores do País e para as exportações.
Extenso questionário teve de ser respondido pelo governo
brasileiro, com explicação detalhada e documentada do sistema produtivo e da
atuação dos órgãos públicos de defesa sanitária. E os três últimos governadores
de Santa Catarina estiveram em Tóquio para tratar do assunto, para se chegar à
etapa atual.
A conclusão definitiva das negociações e, afinal, o início
das exportações, ainda depende de algumas negociações e da aprovação, pelo
governo japonês, da lista de estabelecimentos de abate que atendem às suas
exigências sanitárias.
As negociações para a abertura do mercado chinês também
foram longas (duraram cinco anos) e seus resultados têm sido muito modestos.
Além de importar bem menos carne suína do que o Japão, pois sua produção
doméstica é a maior do mundo, a China só aceita o produto fornecido por um
estabelecimento brasileiro.
No caso do Japão, maior importador do mundo (793 mil
toneladas em 2011, o equivalente a US$ 5,2 bilhões), as perspectivas são bem
mais promissoras. "O reconhecimento do governo japonês muda o mercado
brasileiro de patamar", diz o presidente da Associação Brasileira da
Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs), Pedro de Camargo
Neto.
Camargo espera que, em pouco tempo, o produto brasileiro
responda por 15% das importações japonesas. Se isso ocorrer, as exportações do
País poderão crescer mais de 20% e o Japão figurará entre os quatro principais
destinos da carne de porco brasileira. Atualmente, os três maiores importadores
(Ucrânia, Hong Kong e Rússia, pela ordem) respondem por praticamente 70% das
exportações brasileiras.
No início do ano, também o governo americano aprovou a
importação de carne de porco brasileira, igualmente depois de um longo processo
de negociação. Mas o Brasil ainda tem problemas para exportar carne suína.
A Rússia impôs restrições à entrada de carne bovina e suína
brasileira e, apesar de seguidas negociações com autoridades brasileiras, vem
retardando a eliminação desses entraves. Outro país que, indiretamente, vem
limitando a entrada do produto brasileiro - ao exigir que o importador exporte
um valor igual ao que importou - é a Argentina, a qual o governo brasileiro
dispensa tratamento preferencial, quando não privilegiado.
A abertura do mercado japonês mostra que o País não pode
vacilar no rigoroso controle sanitário de seu rebanho, por meio da atuação
conjunta do governo e dos produtores privados, para não acrescentar mais
problemas aos que já enfrenta com diferentes parceiros comerciais.
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