Valor Econômico, Eu&Fim de Semana, Comportamento, 28 de setembro de 2012
"A Liberdade é chinesa"
Por Kátia Mello | Para o Valor, de São Paulo
Passa um pouco do meio-dia e uma perua escolar buzina para
os alunos entrarem no veículo. A rotina dos meninos e meninas no Colégio Angel,
na rua Fagundes, no bairro Liberdade, em São Paulo, parece como a de qualquer
outra escola brasileira. Mas ali as crianças (entre um e seis anos de idade)
são todas chinesas ou descendentes de chineses. Em cada sala de aula há duas
professoras: uma ensinando português e outra, mandarim. Ideogramas e gravuras
chinesas decoram as paredes. Desde o maternal, os alunos aprendem as tradições
culturais de seus ancestrais. No andar de cima, um grupo almoça numa mesa longa
e as funcionárias correm apressadas para servirem os pratos. Algumas mal falam
português.
Em apenas cinco anos de existência, o número de alunos da
escola saltou de 25 para 185 e há uma fila de espera para vagas no ano que vem.
"O desafio é encontrar um local maior, porque a procura é grande",
diz a coordenadora pedagógica Daniela Botelho. Ela conta que, ao aprenderem
português, as crianças ajudam as famílias a se comunicarem com os brasileiros.
"Muitas vão para as lojas dos pais e acabam servindo como tradutores para
os clientes", diz Daniela.
Um século após a chegada dos primeiros imigrantes japoneses
ao bairro, a Liberdade é cada vez mais chinesa. À primeira vista, não é tão
fácil identificar a mudança. Da praça da Liberdade, onde fica a saída do metrô,
mercearias, lojas, padarias e lanchonetes exibem letreiros em japonês. A
agência do banco Bradesco, conhecida como Bradesco Nikkei, tem um serviço
exclusivo de gerentes que falam o idioma; o McDonald's da praça oferece um
cardápio em japonês. Porém, hoje a maior parte dos estabelecimentos comerciais
é gerenciada por chineses e alguns até contratam balconistas descendentes de
japoneses. A tradicional rua Galvão Bueno, que recebeu na década de 1960 o
primeiro "torii" vermelho (pórtico usado na entrada dos santuários
xintoístas) é repleta de galerias e lojas com produtos fabricados na China.
Atravessando a praça da Liberdade está o próspero
restaurante chinês Chi Fu. O suntuoso salão com certo ar kitsch, garçonetes de
roupas típicas falando mandarim e porções fartas (e em conta) ajudam a explicar
por que ele se tornou referência culinária na cidade. O vizinho mais modesto da
casa é o Ban Wa. O dono, Lian Chen, de 56 anos, chegou ao Brasil há cinco anos
diretamente de Xangai, metrópole da China continental. Ele ainda não fala
português e quem faz a intermediação com a reportagem é o filho Lin Chen, de 18
anos.
Lian veio ao país motivado pelo sucesso dos irmãos e primos
que se estabeleceram no bairro há mais de 20 anos. No início, o cozinheiro de
Xangai trabalhou como chef em um restaurante chinês até montar o seu próprio
negócio. Lian conta que sua clientela é basicamente brasileira. Ele e a mulher
preparam os mesmos pratos de seu antigo restaurante em Xangai. Na Liberdade,
diz se sentir em casa. "A adaptação foi fácil, pois muitos aqui falam
mandarim", afirma. A família Chen trabalha das 11h às 21h, inclusive aos
sábados e domingos. Se tiverem sorte, podem ter o mesmo destino do Chi Fu.
O consulado da China em São Paulo estima que cerca de 200
mil chineses vivem legalmente hoje no Brasil, sendo que 90% deles se concentram
na capital paulista. Dos primeiros chineses que aportaram ao Brasil no século
XIX aos que acabam de aterrissar no aeroporto de Guarulhos, boa parte deles vem
de três regiões da China: Cantão, Fujian e Taiwan. Cerca de 80 mil taiwaneses
vivem na capital paulista. A mais recente leva, porém, partiu da China
continental. Geralmente os chineses chegam por aqui em diferentes condições
sociais e econômicas. Os mais pobres e com maiores dificuldades em falar
português vão trabalhar como vendedores ambulantes nas ruas. No viaduto Osaka,
é possível ver alguns deles com suas mercadorias no chão ou em barracas
improvisadas, disputando espaço com camelôs bolivianos. Acocorada ao lado de
seus produtos eletrônicos dispostos em um pano, uma bela jovem chinesa tenta
explicar que está no Brasil há três meses. Com um sorriso, encerra a conversa:
"Não português".
A primeira leva de chineses aportou no Brasil a pedido de
Dom João VI, que queria trazer agricultores para plantar chá, na época um
produto valioso que poderia render lucros à Coroa portuguesa. O plantio não deu
certo, mas no começo do século XIX os chineses passaram a trabalhar no campo.
Também vieram fazer o chamado "tibao", ou pequeno comércio, com venda
de tecidos, porcelanas e outros artigos. Em 1949, com a revolução de Mao
Tsé-tung, o Brasil cortou relações diplomáticas com a China e enviou seus
diplomatas para o Japão. Três anos mais tarde, a embaixada brasileira foi
restabelecida em Taiwan. O rompimento entre os governos brasileiro e chinês
durou até 1974. Um dos principais destinos dos taiwaneses nos anos 1970 era
Mogi das Cruzes, cidade no interior do Estado de São Paulo, onde se tornaram
hortifrutigranjeiros. Na década de 1980, os chineses passaram a abrir
mercearias na Liberdade, com o fornecimento de verduras das famílias de Mogi.
A partir dos anos 1990, com a abertura da importação no
Brasil, os artigos orientais, principalmente os utilitários, foram muito
procurados e os chineses passaram a dominar esse mercado. "Hoje, cerca de
70% a 80% do comércio na Liberdade é dos chineses", diz Alexandre Liu,
presidente da Unidade Beneficente Taiwan do Brasil, que tem sede no bairro.
Maurício Kobayashi, da Associação Cultural Assistencial da Liberdade (Acal),
uma das mais antigas e respeitadas entidades da comunidade japonesa no país, da
qual fazem parte 120 lojistas da Liberdade, concorda com Liu. Segundo
Kobayashi, a maioria das lojas do bairro é comandada pelos chineses -
"ousados" na hora de negociar, em sua opinião.
"Se os japoneses têm dinheiro para comprar apenas um
contêiner de mercadorias importadas, compram apenas um. Já os chineses, com o
mesmo dinheiro, se arriscam a comprar três", diz Kobayashi. Alguns
comerciantes chineses foram aos poucos adquirindo os estabelecimentos dos
japoneses; outros acabaram alugando. O aluguel de uma pequena loja entre a rua
Galvão Bueno e a rua dos Estudantes, um dos pontos mais caros do bairro, custa
cerca de R$ 15 mil mensais.
Segundo Liu, a comunidade chinesa é muito unida e faz
questão de manter algumas tradições, como exigir dos filhos que estudem
mandarim. "Tenho um filho que foi contratado pela IBM porque sabe
mandarim. As empresas multinacionais valorizam nosso idioma", afirma.
Enquanto os tradicionais jornais japoneses feitos no Brasil perdem leitores
porque muitos descendentes não falam mais o idioma, os chineses continuam a ler
seus periódicos, revistas e livros vindos do país. A comunidade tem acesso a
esse material em locais como o Centro Cultural Escritório Econômico e Cultural
de Taipei, inaugurado em 2005, na rua São Joaquim (a poucos metros da Sociedade
Brasileira de Cultura Japonesa, o Bunkyo).
No primeiro andar, há uma biblioteca e uma sala com belas
indumentárias das dinastias da China expostas. Nos outros andares, um centro de
meditação divide espaço com um espaço para eventos. O local é ponto de encontro
da comunidade. Enquanto jovens assistem a shows de bandas chinesas, os mais
velhos se reúnem para colocar em dia as novidades da terra natal. O Centro
Cultural de Taipei estima que anualmente cerca de 40 mil pessoas passam por
ali, entre orientais e não orientais.
Os japoneses, por sua vez, estão na Liberdade desde 1912 - a
colônia se concentrava nas cercanias da rua Conde de Sarzedas. A partir da
década de 1920, estabeleceram suas primeiras mercearias de artigos típicos. Em
seu livro "O Imigrante Japonês - História de Sua Vida", o autor Tomoo
Handa (1906-1996), renomado pintor, professor e jornalista, descreve como era a
vida destes primeiros imigrantes. Eles trabalhavam em tarefas domésticas
(copeiros, jardineiros, empregadas) e devido aos baixos salários acreditavam
ser vantagem morar na região central, pois economizavam no transporte. Muitos
moravam em porões que, ao longo dos anos, foram sendo transformados em casas de
udon, mercearias e pensões.
Entre 1917 e 1940, o Brasil recebeu 164 mil imigrantes
japoneses. A maioria veio trabalhar nos cafezais do Estado de São Paulo e norte
do Paraná, incentivada pelo governo brasileiro. Na década de 1930, o país já
abrigava a maior população japonesa fora do arquipélago. Na Segunda Guerra
Mundial (1939-1945), o governo de Getúlio Vargas se juntou aos Aliados, tornando-se
inimigo do Japão. A vinda de imigrantes e o idioma foram proibidos no Brasil;
manifestações culturais e reuniões dos nikkeis (japoneses e seus descendentes)
eram vigiadas e reprimidas por agentes do Dops.
Em fevereiro de 1942, a comunidade do bairro da Liberdade
recebeu a primeira ordem de evacuação. Famílias tiveram dez dias para abandonar
suas casas e assim aconteceu a primeira "diáspora" japonesa em São
Paulo. Os japoneses partiram para bairros como Saúde, Praça da Árvore,
Aclimação, Vila Carrão e até para outros Estados e países. Ao fim da guerra,
surgiram na Liberdade os primeiros jornais japoneses, como "São Paulo
Shimbun" e "Jornal Paulista".
Foi também entre os anos 1950 e 1960 que a Liberdade se
tornou um efervescente polo cultural, com as salas de cinema Niterói, Jóia,
Nippon e Tokyo. Filmes japoneses dos grandes estúdios chegavam a estrear antes
no Brasil e celebridades locais vinham para cá, em concorridas estreias. Mesmo
que fosse destinado à comunidade, já que os filmes eram exibidos sem legendas
em português, esse circuito cinematográfico atraía admiradores ocidentais, como
Antunes Filho, Carlos Reichenbach (1945-2012) e Walter Hugo Khouri (1929-2003).
À frente da livraria Sol, um dos estabelecimentos japoneses
mais antigos do bairro, Mitiê Urayama (à dir.) viu a chegada dos comerciantes
chineses
É desta época a inauguração da livraria Sol, que segue hoje
no mesmo endereço na praça da Liberdade. Mitiê Urayama é da família dos donos
da livraria que atende um público variado, dos nikkeis em busca de livros e
revistas japonesas até jovens brasileiros interessados nos mais recentes
mangás. Mitiê diz que testemunhou a passagem das lojas japonesas para as mãos
dos chineses. "Hoje os chineses estão dominando o bairro. Os japoneses
estão na sexta, sétima geração e não se interessam mais pelo comércio",
afirma. A especialista em imigração japonesa Célia Sakurai diz que durante anos
os japoneses se empenharam muito em dar educação aos filhos. "Depois que
eles fizeram curso superior, não quiseram mais cuidar das lojinhas na Liberdade
e acabaram seguindo suas profissões", afirma Célia.
A ideia de transformar a Liberdade em bairro oriental foi do
jornalista Randolfo Marques Lobato. Em 1969, ao lado de uma comissão de
japoneses, chineses e coreanos do bairro, Lobato propôs um plano urbanístico
para criar uma espécie de Chinatown, similar aos bairros turísticos orientais
das cidades de Nova York, Seattle e San Francisco, nos Estados Unidos. O
"torii" vermelho da rua Galvão Bueno foi o primeiro marco desse
projeto, seguido dos postes vermelhos com três lanternas
("suzurantô") e dos símbolos heráldicos ("mitsudome") nas
calçadas. Dois anos antes, o local já havia sido visitado pelo então príncipe
Akihito e a princesa Michiko, hoje o casal imperial do Japão.
Com a chegada do metrô Liberdade na década de 1970, houve
desapropriações, algumas ruas foram alargadas e muitos japoneses mudaram de bairro,
deixando apenas os estabelecimentos comerciais. Hoje, japoneses, chineses e
coreanos parecem conviver harmoniosamente. Edna Nonoguchi, de 50 anos, dona do
restaurante Yamaga e mulher do chef de Kyoto Toshizo Nonoguchi, diz que a
integração entre os orientais é muito boa. "Minha melhor amiga é taiwanesa
e falamos em português. Nossas famílias sempre viajam juntas", afirma.
"É como o Bom Retiro, onde convivem bem árabes e
judeus", diz Marcos Kim, filho de coreanos que se casou com Alice Ura,
descendente de japoneses. O casal é proprietário do Hotel Akasaka, na praça da
Liberdade. A mãe de Kim fez parte da primeira leva de imigrantes coreanos que
chegaram ao Brasil, em 1963. A maior colônia coreana hoje mora na Aclimação,
bairro próximo a Liberdade, e costuma trabalhar no Brás e no Bom Retiro. Assim
como os chineses dominaram comercialmente a Liberdade, os coreanos fizeram o
mesmo com o Brás. Há alguns anos, uma tia de Kim, sócia do hotel, comprou
imóveis na Liberdade. O hotel está em reforma e no primeiro andar está sendo
construído um restaurante de cozinha oriental. O apreço pela culinária japonesa
vem dos anos 1980, quando Alice morou no país. Na época, o governo japonês
incentivava dekasseguis (brasileiros descendentes de japoneses que trabalham no
Japão) a morar no país.
Kim conheceu Alice numa viagem ao Parque Estadual do
Jalapão, no Estado do Tocantins. Ele era professor de fotografia e Alice,
engenheira civil. Ambos deixaram suas profissões para tocar os negócios da
família e hoje tem uma filha de dois anos. Alice e Kim costumam participar das
festividades da Liberdade, tanto o Ano Novo Chinês, no mês de fevereiro, como
outros eventos realizados pela comunidade nipônica.
No Ano Novo Chinês na Liberdade, chineses, japoneses e
coreanos se misturam na festa - um clima de harmonia bem diferente das relações
muitas vezes tensas entre Japão, China e Coreia do Sul devido a traumas dos
tempos da Segunda Guerra. Segundo a associação taiwanesa, o evento atrai cerca
de 150 mil pessoas nos dois dias de comemoração, quando acontecem desde
apresentações de danças folclóricas a cantos chineses e demonstrações de kung
fu. Nos cinco grandes eventos da comunidade japonesa acontece o mesmo. Fica
difícil distinguir quem é nikkei e quem acabou de chegar de Xangai. Curiosamente,
na mesma praça onde hoje se celebram de maneira majestosa as manifestações
culturais do Oriente, havia um pelourinho. O nome Liberdade é originário dos
tempos da escravidão. A avenida Liberdade era a rua da Forca e na rua dos
Estudantes ficava o cemitério dos escravos. Mas isso foi há muito tempo.
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